Um pouco das lendas e das histórias do automobilismo dos anos sessenta
 

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Fortaleza - Autódromo Virgilio Távora
 
 
 
 
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Fortaleza, capital do estado do Ceará, está localizada no litoral Atlântico a uma altitude média de 21 metros e conta com 34 km de praias, é centro de um município de 313,8 km² de área, e hoje é um destino turístico importante, suas praias urbanas são as de Iracema, Meireles, Mucuripe e a fantástica Praia do Futuro.
A criação do município de Fortaleza aconteceu em 13 de abril de 1726, quando a povoação do Forte Nossa Senhora da Assunção foi elevada à condição de Vila de Fortaleza, depois, em 1823, o Imperador Dom Pedro I elevou a vila à categoria de cidade.
Fortaleza teve como origem o Forte de São Sebastião e a Capela de Nossa Senhora do Amparo, erguidos por Martins Soares Moreno sobre as ruínas do Fortim de São Tiago de Nova Lisboa, fundado anteriormente por Pero Coelho de Souza. Em 1637, o Forte foi ocupado por uma expedição holandesa que dominou o Ceará de 1640 a 1644. Derrotados pelos índios os holandeses voltaram seis anos depois à região comandados por Matias Beck, que ergueu o Forte Shoonemborch às margens do Riacho Pajeú. A expulsão definitiva dos holandeses ocorreu em 1654 pelo comandante português Álvaro de Azevedo Barreto que mudou o nome do Forte para Nossa Senhora da Assunção.
Durante o Segundo Império, entre 1843 e 1849, o Intendente, Tenente Cel. Antônio Rodrigues Ferreira e o Arquiteto Adolfo Herster realizaram obras urbanísticas que transformaram Fortaleza.

1967 - Corrida no Pici
Acervo: Nelson Bezerra "Emprestada" do Blog:
fortalezanobre.blogspot.com

O automobilismo estava, nos anos 60, centralizado no sul e sudeste do País quando em 1964 houve duas corridas em Fortaleza na Avenida Antônio Justa, em cujas extremidades faziam-se curvas de 180 graus. Depois, com a supervisão do Automóvel Clube do Ceará, passou-se a usar a pista do Pici, na antiga Base Aérea de Fortaleza, (base utilizada pelos aliados durante a II Guerra Mundial, em 1941 começaram as obras de construção da pista, que ficou concluída em março de 1942).
Sim, o nordestino gostava de automobilismo, haja visto também as provas realizadas nos circuitos de rua de Salvador, Recife, Maceió, Natal e Fortaleza. E foi nessa cidade que acabou sendo construído o primeiro autódromo do Nordeste, o “Autódromo Virgílio Távora”. Saiba aqui um pouco dessa história:
Os pilotos conseguiram da prefeitura a promessa em asfaltar e construir um lance de arquibancadas na pista do Pici, mas, sem conseguir autorização do DNOCS teoricamente os donos do terreno, os pilotos se cotizaram e compraram um lote de 33 alqueires no município de Euzébio, ao lado de Fortaleza, o que inviabilizou a ajuda da prefeitura de Fortaleza pois o lote pertencia a outro município: Aquiraz, na época. 
Uma comissão de pilotos foi então pedir ajuda ao ex-governador Virgilio Távora que intercedeu junto ao Min. dos Transportes que autorizasse o DNER a asfaltar a pista. Logo as máquinas começaram a preparar o terreno para receber o asfalto, só que o DNER precisava pagar o asfalto à Petrobras, então João Quevedo recorreu à Secretaria de Planejamento e conseguiu uma verba suplementar que ajudou em vários pagamentos, mas o “grosso” teve que ser novamente cotizado entre os pilotos. Como "premio" do enorme esforço e dedicação de todos, em aproximadamente quatro meses o autódromo estava em condições para a corrida inaugural.
Como era comum na época, a corrida de inauguração homenageou um político, e no caso, um militar (era época dos governos militares) o Cel. Mario Andreazza, Ministro dos Transportes.
Foi então inaugurado o autódromo no dia 12 de janeiro de 1969 com o “Grande Prêmio Ministro Mário Andreazza”, que compareceu à solenidade. Estavam presentes também o ex-governador Virgílio Távora, o governador Plácido Castelo, o General Élery, José Valter Cavalcante, prefeito de Fortaleza, Amílcar Távora, diretor-geral do DNER, e o prefeito do município do Eusébio. Prova essa que teve 65 voltas e contou com dezesseis carros inscritos por pilotos da região: cearenses, pernambucanos, baianos e com a notável presença de dois paulistas.
O Ministro Andreazza cortou a fita simbólica inaugurando o autódromo, e às 14 horas do domingo deu partida à prova automobilística, de cem milhas, que levava seu nome, largaram 15 carros sendo 8 do Ceará, 2 de Pernambuco, 3 da Bahia e 2 de São Paulo

O autódromo em construção
"Emprestada" do Blog do Jovino
 

O autódromo tem o nome de Virgilio Távora, em homenagem ao ex-governador do Ceará; possui 2,5 km de extensão, num circuito asfaltado de acordo com os padrões internacionais, medindo 12 metros de largura nas retas e 14 nas curvas, com ângulos que variam de 60 a 180 graus, com pouca inclinação” (Folha de S.Paulo - 12/01/1969).
Eram quatro as curvas do circuito, sendo três de baixa e uma de alta velocidade, por onde corria-se no sentido horário, a intenção era abrigar o automobilismo local e regional, mas também inserir Fortaleza no calendário nacional.

Traçado original, sentido horário
Origem: Wikipedia


Até o momento foram investidos nesse autódromo 220 mil cruzeiros novos, grande parte dos quais cedidos pelo governo estadual”. (Folha de S.Paulo - 12/01/1969)
O autódromo fica a 17 quilômetros de Fortaleza, ligado ao centro por uma estrada pavimentada, e está localizado na rua Ayrton Senna, nº 01, município do Eusébio, região metropolitana de Fortaleza, dispõe de arquibancadas para 5 mil pessoas e foi construído por iniciativa da Associação Cearense dos Volantes de Competição.
Entre os carros inscritos na prova inaugural, estava o Puma número 17 da Equipe AF, que foi pilotado pelo baiano Luís Pereira dos Santos, o “Lulu Geladeira”. O paulista Terra Smith conduziu uma Berlineta Willys Interlagos da Torke, dois protótipos CBA foram inscritos, um deles para o cearense Antonio Cirino, e o outro, pilotado por outro cearense, César Figueiredo, era considerado o melhor protótipo do Ceará. Diversos VW bem preparados, como os de André Burity, Ramon Cortiso e Samuel Cohen, também o Karmann Ghia de Tarcílio “Nenen” Pimentel, três DKWs, dois Simcas e um Gordini fechavam o pelotão.
“Lulu Geladeira” depois de fazer a pole liderou de ponta a ponta a prova, sendo pressionado apenas no início pelo protótipo de César Figueiredo que quebrou o motor e pela Berlineta de Luiz Fernando Terra Smith que acabou ficando diversas voltas parado no box com problema na embreagem, mas quando retornou à pista marcou a volta mais rápida da corrida (e o primeiro recorde da pista) com 1m26s.
Nenen Pimentel com o Karmann Ghia, que geralmente dava trabalho nas corridas (para os adversários), abandonou a prova, e Samuel Cohen que teve o pára-brisa quebrado precisou parar nos boxes, impedindo uma luta pela vitória. O público, sem um cearense para torcer, acabou torcendo por Terra Smith que tentava recuperar o tempo perdido.
O resultado final:
1º Lulu Geladeira (BA) Puma VW 1600 - 65 voltas, 1h40m2s, média de 97,5 km/h
2º Ramon Cortizo (PE) VW 1600
3º Antônio Cirino (CE) - Protótipo Italdiesel
4º Armando Barbosa (CE) DKW/Vemag
5º Carlos Fernandes (CE) Simca
6º Artur Vichmann (CE) DKW/Vemag
7º Leonardo Godoy (BA) Renault 1093
8º Luiz Fernando Terra Smith (SP) Berlineta
9º André Burity (BA) VW 1600

Os hotéis de Fortaleza lotaram, o publico compareceu em grande quantidade apesar da concorrência do sol e das lindas praias, e os prêmios foram entregues na própria pista pelo Ministro Mario Andreazza.

Largada para a primeira prova
"Emprestada" do Blog:
robertopcosta.blogspot.com
Largada para a primeira prova
"Emprestada" do 
Blog de Automobilismo Brasileiro - Carlos de Paula
Luiz Fernando Terra Smith na Berlineta e Antônio Cirino no Protótipo
"Emprestada" do Blog:
robertopcosta.blogspot.com

O Karmann Ghia de Nenem Pimentel perseguido pelo Puma de Lulu Geladeira
Reprodução Revista 4 Rodas 
Luiz Fernando Terra Smith na Berlineta e Antônio Cirino no Protótipo - "Emprestada" do
Blog de Automobilismo Brasileiro - Carlos de Paula

Em maio foi realizada a segunda prova no “Autódromo Virgilio Távora”, uma etapa do Campeonato Norte-Nordeste que foi chamada de “Corrida Gov. Plácido Castelo” em homenagem ao Governador Plácido Aderaldo Castelo (1906/1979).
Inscreveram-se para a prova 13 pilotos do Ceará, 7 da Bahia e 6 de Pernambuco, sendo que o favorito era o baiano Luis Pereira dos Santos, o “Lulu Geladeira” com um Puma VW 1600, vencedor que fora da prova inaugural do autódromo.
E confirmando o favoritismo ele venceu a prova, seguido de outro baiano, de um pernambucano e só em quarto lugar chegou um cearense, Fernando Ary, o “Galego” com um VW Standard.
Ficou assim a classificação:
 Lulu Geladeira (BA) Puma GT VW 1600
 André Burity (BA) VW 1600
 Fernando Burle (PE) VW 1600
 Fernando Ary (CE) VW 1300


A terceira prova no novo circuito foi realizada em 24 de agosto e foi em homenagem às Forças Armadas, uma prova regional, mas não menos importante. Chamada de “Premio Forças Armadas” a prova foi marcada pela bela disputa entre Nenen Pimentel, com Karmann Ghia 1900cc e Antonio da Fonte, com Opala 3800cc. Durante toda a prova esses dois pilotos brigaram pela primeira colocação, trocando várias vezes de posição, mas já bem distanciados dos outros concorrentes. Tanto que ambos marcaram a melhor volta no circuito: 1m24s, que passou a ser o novo recorde da pista.
O resultado final:
1º Nenen Pimentel - Karmann Ghuia 1900 - 30 voltas, 44 min.
2º Antonio da Fonte - Opala 3800 - 30 voltas
3º Anibal Capelo Feijó - Corcel - 28 voltas
4º Aluísio Nóbrega - DKW/Vemag - 26 voltas
5º Haroldo Peixoto - Karmann Ghuia - 25 voltas
6º Oscar Cavalcante - VW 1600 - 25 voltas
7º Dimas de Castro - VW 1300 - 25 voltas
8º Arialdo Pinho -  VW 1300 - 24 voltas
9º Mozart Gomes de Lima - Renault - 24 voltas
10º Valkmar de Oliveira - VW 1300 - 23 voltas

Reprodução 
Revista 4 Rodas

Em 19 de outubro de 1969 aconteceu a quarta prova do ano no autódromo, o “GP do Ceará” com a distancia de 500 quilômetros, o que levou alguns a chamá-la de 500 Km de Fortaleza. Contou com a participação de 22 carros pilotados por duplas de pilotos e foi promovido pela Federação Cearense de Automobilismo, Associação Cearense de Volantes de Competição e VASP, com o apoio dos governos dos estados de Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte. Essa prova levou à capital cearense alguns dos melhores pilotos paulistas, cariocas e até um gaucho, além de vários da região nordeste, beneficiados com o prêmio de largada de 1.000 cruzeiros novos.
A premiação foi de: NCr$ 10.000,00 para os vencedores, NCr$ 5.000,00 para os segundos colocados, e NCr$ 3.000.00 para os terceiros, os recursos foram obtidos junto aos governos de outros estados nordestinos, e assim acabaram participando equipes de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Aracaju, Fortaleza e até do Rio Grande do Sul, a 4147 km  de distância.

Reprodução Revista 4 Rodas

Estavam inscritos: uma Lola T70, dos irmãos Paioli; a famosa equipe Jolly com suas Alfa GTA; o protótipo Bino Mark I, nas mãos de Fernando Pereira e Carlos Erymá, pilotos cariocas; o lendário Chico Landi em dupla com Antonio Carlos Avallone, com um protótipo baseado em uma ex-Maserati esporte; um AC, de Olavo Pires; o protótipo Patinho Feio, de Brasília, além do melhor que o Nordeste tinha a oferecer, entre eles o Puma de “Lulu Geladeira” e o Karmann Ghia de Nenen Pimentel. Ao todo 22 duplas, e entre os pilotos muitas feras: Marivaldo Fernandes, Emilio Zambello, Alex Dias Ribeiro, Chico Landi, Ubaldo Lolli, Chiquinho Lameirão (correndo com Fernando Ary, de uma escuderia local), Antonio Carlos Avallone, Milton Amaral, Carlos Erymá, Mario Olivetti e Rafaelle Rosito, do Rio Grande do Sul.
O gaúcho fez dupla com o paulista Sílvio Toledo Piza no Fusca 1600 nº 4. Largaram na 7ª posição com o tempo de 1min20s7. O pole foi o Lola T70/Chevrolet dos irmãos cariocas Márcio e Marcelo de Paoli com 1min14s9 para os 2500 metros da pista.
De todos os carros que largaram à frente do Fusca nº 4, apenas a Alfa Romeu GTA nº 25 dos paulistas Marivaldo Fernandes e Luiz Fernando Terra Smith concluiu, e em primeiro lugar, assim o Fusca chegou em uma excelente 2ª posição, 10 voltas atrás dos vencedores. Na 3ª posição o Protótipo Camber 2000 da dupla brasiliense Alex Dias Ribeiro e João Luis da Fonseca.
Resultado final:
1º Marivaldo Fernandes/Luis Fernando Terra Smith - Alfa GTA, 200 v, 4h38m50s2/10, 107.913 km/hr (SP)
2º Silvio Toledo Pisa/Rafaele Rosito, Prot. VW, (RS)
Alex Dias Ribeiro/João Luis da Fonseca, Prot Camber 2000 (DF)
4º Olavo Pires/Jorge Pappas, AC VW (DF)
5º João Brussel/Jose Luis Bastos , Puma (BA)
6º Carlos Fernandes/Arialdo Pinho, Prot VW (CE)
7º André Gustavo/Luis Carlos Brás, VW (DF)
8º Milton Amaral/Jose Morais, Prot VW (RJ)
Enio Garcia/Antonio Martins, Elgar (DF)
10º Waldemar Santos/João Quevedo, Prot VW (CE)
11º Arivaldo Carvalho/Eduardo Pina, Alfa Romeo 1600 (SE)
12º Fernando Ary (CE)/Francisco Lameirão (SP), VW
13º Mario Olivetti/Lair Carvalho, Alfa GTA (RJ)

A entrega dos prêmios foi no Sport Club Maguari que ficava situado na rua Barão do Rio Branco, perto da avenida 13 de Maio, e Marivaldo saiu de Fortaleza com, além da vitória, também o titulo de Campeão Brasileiro de 1969 com uma prova de antecedência em virtude de suas três vitórias consecutivas.

Karmanm-Ghia já bastante modificado de Neném Pimentel/Samuel Cohen
Foto de Claúdio Cruz "Emprestada" do Blog:
mestrejoca.blogspot.com
Bonito protótipo VW "made in Ceará" de Carlos Fernandes e Arialdo Pinho
Reprodução Revista 4 Rodas
Os três primeiros colocados:
Alfa GTA, VW 1600 e Protótipo Camber
Reprodução Revista 4 Rodas

Em 15 de fevereiro de 1970 foi realizada a primeira prova internacional no circuito, a terceira etapa do  Torneio Internacional BUA” de Fórmula Ford, com vitória de Emerson Fittipaldi e Luiz Pereira Bueno em segundo com o inglês Ian Ashley em terceiro.

Novo traçado, sentido anti-horário
Origem: Wikipedia

Em 1997, o autódromo passou por uma grande reforma que foi resultado de um acordo de cooperação entre a Secretaria do Turismo do Estado, a Petrobras e a Federação Cearense de Automobilismo. 
Na reforma o traçado do autódromo foi modificado, e depois de seis meses de obras, quando foram investidos R$ 300 mil, ficou mais longo, com 3000 metros, e mais seguro.
Após a reforma a reabertura se deu em 30 de novembro de 1997 com uma prova de endurance, “Seis Horas do Ceará”, que a dupla Nelson Piquet/Ruyter Pacheco, de Brasília (DF), venceu a bordo de um protótipo BMW de 4 cilindros e 300cv, completando 237 voltas, com oito de vantagem sobre o segundo colocado.


 
Acrescentada dia 1 de abril de 2012
  

 


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