Um pouco das lendas e das histórias do automobilismo dos anos sessenta
 

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I Grande Prêmio Cidade de São Paulo
12 de julho de 1936
Circuito do Jardim América
(Parte 3)
 

Índice
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  1. Um pouco de história
  2. Surge a idéia da prova
  3. A pista
  4. A preparação
  5. Participantes
  6. Organização
  7. A prova
  8. O acidente
  9. Conseqüências
10. A classificação
11. A premiação
12. Conclusões
13. Galeria de fotos                              NOVO!
14. Mapa do Circuito                            NOVO!
 
 
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8. O acidente
 
Durante quase toda a prova Hellé Nice se manteve em 3º lugar, sempre perseguida muito de perto por Teffé, até que ao atingirem a 50ª volta (48ª para eles, pois tinham 2 voltas de desvantagem para o líder) Hellé Nice fez sua única parada no Box para reabastecer (dizem os jornais da época que foram apenas 28 segundos), o suficiente para que Teffé assumisse o 3º lugar.
Hellé Nice voltou e foi, volta após volta, diminuindo a diferença. Foi um espetáculo que por 10 voltas monopolizou a atenção do público já desinteressado pelos dois primeiros que corriam folgados na frente, e a torcida se dividiu, uns torciam por Teffé, um ídolo nacional, outros por Hellé Nice, única representante do sexo feminino. A torcida vibrava com entusiasmo e nesse momento os Guardas Civis tiveram trabalho para conter o entusiasmo da grande massa que forçava os cordões de isolamento para ver mais de perto. A diferença era cada vez menor.
Pintacuda cruzou a linha de chegada completando as 60 voltas, Marinoni também completou a prova, com uma volta de atraso, Teffé e Hellé Nice, duas voltas atrasados, iniciaram a última volta, Teffé acelerou seguido por Hellé Nice que estava determinada a retomar o 3º lugar. Os dois passaram atrás da Tribuna de Imprensa e as atenções se voltaram para a reta final onde se decidiria a disputa. A pista, toda plana, não favorecia a visão. Fizeram o retorno na Rua Atlântica, última curva, estavam a uns 700 metros da linha de chegada. Feita a curva Teffé seguiu firme pela direita imprimindo grande velocidade em seu carro, Hellé Nice, num derradeiro esforço acelerou tudo e nos últimos 100 metros já estava a um carro de diferença, com o “Pássaro Azul” tentava alcançar o “Amarelinho” de Teffé. Faltando 50 metros, Hellé Nice desviou seu carro para a esquerda aproveitando o espaço entre o carro de Teffé e a margem da pista, e aí, faltando 20 metros, se tanto, ela quase emparelhou. Nesse instante aconteceu o imponderável, um soldado, que com seus companheiros estava junto ao meio-fio, entre a arquibancada e a Tribuna da Imprensa para poder ver melhor a chegada, desceu da calçada e esticou o pescoço e na tentativa de ver melhor se desequilibrou e avançou involuntariamente para a pista, Teffé passou pela direita, mas Hellé Nice que vinha pela esquerda, não teve como evitar, embora ainda tenha tentado desviar para a direita, quase se chocando com o carro de Teffé, e voltado para a esquerda. Não conseguindo evitar o atropelamento o carro apanhou o soldado, cortando, com o impacto, uma perna, que foi atirada à distância. No momento em que Teffé cruzava a linha de chegada Hellé Nice se desgovernava, batendo nos fardos de alfafa (ou areia), ricocheteando, dado uma volta sobre as rodas dianteiras levando inúmeros espectadores que estavam ao lado da pista, ao mesmo tempo em que a volante francesa era projetada no ar (não havia ainda os cintos de segurança), indo cair junto ao Posto dos Cronometristas do outro lado da pista, sobre um soldado, o carro continuou rodando e batendo continuamente contra o público, e foi parar bastante amassado mais adiante.
Depoentes afirmaram que Hellé Nice corria com velocidade superior a 140 km/h na tentativa de ultrapassar o carro de Teffé, ocupando o lado esquerdo da pista entre este e os fardos de alfafa colocados junto ao meio-fio, quando o trágico acidente aconteceu.
Em seguida, passado o impacto, lançaram-se todos, populares e militares, a socorrer as vítimas, ou simplesmente na curiosidade de ver de perto, e com isso, a pista ficou tomada.
A polícia e os dirigentes do Automóvel Clube de São Paulo tudo fizeram para processar da forma mais rápida a interrupção da prova, pois outros concorrentes buscavam passagem, uma vez que a pista se achava invadida pelo público.
Hellé Nice foi socorrida e logo uma moto conduzindo uma maca a removeu para a Rua Peru, e foi seguida por numerosos curiosos, os guarda civis, agora ajudados por soldados do exército, tentaram mantê-los afastados, mas a confusão era grande. Levaram-na para a casa de nº 76, onde recebeu os primeiros socorros, o povo invadiu a casa, e ela ainda sem sentidos foi removida para o Hospital Sta. Catarina onde chegou em estado de comoção cerebral, com 76 pulsações por minuto, pequenas escoriações no rosto, uma contusão na face posterior do cotovelo e idêntica lesão na região escapular.
Nesse meio tempo os mortos, dois até aquele momento, e os feridos eram levados também para a Rua Peru e enquanto aguardavam remoção ficavam estendidos na calçada, e o desfile de populares curiosos aumentava. O transporte demorou, as ambulâncias tinham dificuldade em chegar até o local, os feridos mais graves acabaram sendo transportados em dois carros particulares e em um caminhão, os outros foram transportados mais tarde pelas ambulâncias.
O Dr. Alves Martins foi o primeiro médico que atendeu a corredora e acabou por decidir remove-la num carro particular para o Hospital Sta. Catarina com receio do tumulto que havia se formado. No hospital Hellé Nice passou aos cuidados do Prof. Luciano Gualberto, foi medicada e só acordou no dia seguinte, o Professor fez, por escrito, uma declaração para o jornal “Diário Popular”:
“Mademoisselle Hellé Nice passou bem a noite. Seu estado geral melhorou, já se alimentou e responde as perguntas feitas. Temos boas esperanças de vêl-a completamente restabelecida”.
Foi muito grande a afluência de pessoas interessadas em notícias durante o tempo em que Hellé Nice esteve internada. Eram tantos telefonemas, que chegavam a congestionar as linhas, na busca de informações sobre o estado de saúde da, então, heróica corredora francesa.
 
"A prova insophismável da nenhuma responsabilidade do grande volante nacional Manuel de Teffé"
Reprodução: Diário Popular - 13/7/36

Nota do site: Olhe com atenção e você vai ver um corpo na frente do carro e o número 10 pintado no chão.
"Um flagrante di triste episódio de hontem, focalizado pela "A Tribuna". Hellé Nice, desacordada, em estado de choque, é retirada do local onde caíra, nos braços dos guardas civis, À esquerda, três feridos do pavoroso desastre collocados nas macas aguardam a chegada do carro da Assistencia"
Reprodução: Tribuna de Santos - 13/7/36
Acidente com o carro de Hellé Nice
Reprodução: Site GP Total



 
Uma das muitas capotadas do carro de Hellé Nice, já sem a piloto
Reprodução: O Estado de São Paulo - 14/7/36


 
"O estado em que ficou a frente da Alfa Romeo de Hellé Nice, após o trágico acontecimento. Na frente do "chassis", de mistura com as ferragens, à direita, pedaços da farda de um soldado"
Reprodução: Tribuna de Santos - 13/7/36
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9. Conseqüências
 
Do lamentável desastre o Guarda Civil José Francisco Rodrigues (19 anos), da Divisão Escolar, foi victima de um acidente singular. A automobilista francesa, cuspida violentamente do carro, foi atirada ao ar, vindo a cahir de cabeça sobre seu hombro. Como conseqüência do choque, que lhe fracturou a clavícula, o Guarda foi de encontro a um obstáculo, soffrendo ahí a fratura de duas costellas. É opinião geral que se não fora o corpo do guarda a corredora esmigalharia o crâneo de encontro ao solo. O estado desse guarda é grave.” (Estado de S.Paulo - 14/7/36)
O entusiasmo pelos lances emocionantes da corrida levaram alguns espectadores a não atender aos apelos insistentes feitos pelos organizadores, publicados nos jornais, transmitidos pelas rádios e pelo serviço de som da pista. Daí o triste falecimento de cinco militares, 3 da Força Pública e 2 do Exército, que lá se encontravam unicamente como assistentes da prova, todo o policiamento foi feito pela Guarda Civil.
“Três soldados da Força Publica tiveram ferimentos gravíssimos, José Reis (37), que veio a falecer, teve a perna esquerda arrancada, com o impacto ela foi jogada na Tribuna dos cronometristas: Geraldo Telles de Castro (32), soldado reformado do 1º Batalhão da Força Pública, teve seu pé direito arrancado, que depois apareceu na Assistência Pública, levado por um Guarda Civil que o achou no meio da pista, e Sebastião de Abreu (22) soldado da Força Publica  que teve a perna esquerda esmagada.” (Tribuna de Santos - 14/7/36)
Resumo fornecido pela polícia e publicado nos jornais do dia 13/7/36
Militares mortos     5
Militares feridos    12
Guardas Civis feridos  2
Corredora ferida    1
Comerciários feridos 6
Comerciantes feridos   4
Funcionários Públicos feridos 3
Operários feridos   3
Vendedor ambulante ferido 1
Sem profissão declarada (menores)   3
Total   40
Junto foi publicada uma lista com todos os nomes, idade, profissão e endereço, e hoje, examinando essa lista se percebe 3 pequenos enganos:
Na lista de mortos aparecia até esse dia um “Francisco de Tal”, que depois não apareceu mais; entre os funcionários públicos feridos, o sub-delegado de Mogi, faleceu, então a lista de mortos voltou a 5; os guarda civis feridos na verdade foram 3; apesar desses erros o total não se alterou, 5 mortos e 35 feridos em estado grave, e considerável numero de feridos sem gravidade que depois de atendidos foram liberados.
Comunicado da polícia:
“Os mortos foram em numero de cinco, três soldados da Força Pública e dois militares do Exercito. Dois militares morreram no próprio local do desastre, dois no hospital, no mesmo dia, e mais um soldado da Força Publica, espirou no hospital daquela corporação no dia seguinte.”
A lista:
1. Moacyr Ferreira Galvão (28)               Força Publica
2. Ruy Ramos (19)                                Exercito
3. Hercílio José Barbosa (18)                 Exercito
4. Orlando Torres (20)                           Força Publica
5. José Reis (37)                                  Força Publica
Outro comunicado:
Entre as víctimas contam-se 19 militares (praças do exército e da Força Pública, e Guardas Civis) dos quaes apenas 2 Guardas Civis (Site: na verdade 3) estavam, na ocasião, em serviço, já estando apurado que os demais, em número de 17, encontravam-se na Av. Brasil, de folga, como simples assistentes”.
Irrepreensível, porém, foi o serviço da Guarda Civil, com energia e elegância de atitudes, os guardas que ali estavam desde muito cedo davam ordens, com presteza e disciplina. O serviço de policiamento foi muito bem organizado pelo Comando da Guarda Civil, que empregou cerca de 1700 homens, cada um com sua função previamente definida, mas antes e acima do dever profissional, zelar pela vida pública. Presidiu os serviços o Dr. Bresser Monteiro, sub-comandante da Guarda Civil.
Irradiação da prova
A transmissão da prova foi feita por diversas estações, Rádio Cruzeiro do Sul, estação oficial do Automóvel Clube de São Paulo, em rede com 35 estações nacionais e estrangeiras, em ondas médias e curtas. A Rádio Difusora de São Paulo, também autorizada pelo Automóvel Clube de São Paulo, que em parceria com a Rádio Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, irradiou a sensacional corrida a partir das 8:30h.
Campanha de solidariedade:
Imediatamente ao acidente, a Rádio Record, na capital, e a Rádio Atlântica, em Santos (SP), deram início à uma campanha para arrecadar fundos em prol das vítimas e suas famílias.
A Escola Superior de Educação Física, em homenagem à corredora francesa, única representante do sexo feminino que com sua presença contribuiu para o sucesso da prova, lançou uma campanha em seu favor.
A Cia. de Revistas e Operetas Portuguesas realizou, na sexta-feira seguinte ao acidente, duas apresentações no Cassino Antarctica cuja renda destinou à campanha da Rádio Record.
O acidente e suas conseqüências repercutiram no Brasil inteiro, em Belo Horizonte (MG) a Sociedade Rádio Mineira abriu uma subscrição em favos das vítimas, no Rio de Janeiro, palco do Circuito da Gávea no mês anterior, todos os jornais publicaram amplas reportagens a respeito do acidente em São Paulo.
A corrida em São Paulo terminou com uma nota dolorosa. A fatalidade colheu a corredora francesa, tornando-a protagonista de uma tragédia que agitou os nervos da Paulicea e de todo o paíz.
A par desse aspecto fulgente, outro apparece que nos enche de legítimo orgulho com as demonstrações de solidariedade da alma paulista, acudindo com uma impetuosa soffreguidão ao apelo que uma das estações de rádio lançou em favor das famílias...” (Jornal do Brasil - 13/7/36)
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Acrescentada dia 30 de março de 2009


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